O princípio de honestidade, do latim “honos”, aquilo que é digno e respeitoso, aplicado no desenvolvimento de produto, talvez seja um pouco subjetivo de se compreender em primeira instância, mas quando observado sob aspectos da percepção humana, e consequentemente sua linguagem compreendemos o quão sutil é o mecanismo de interação do indivíduo com o ambiente. Entendemos também a efetividade da influência de um produto no subconsciente e na rotina de uma pessoa, gerando um alto grau de responsabilidade quando se pensa em produto, conceito, usabilidade e consumo. Criar vínculos e empatia entre seres humanos e objetos, onde este quase se torna uma extensão daquele, confere ao profissional criativo grande responsabilidade sobre as atitudes e escolhas tomadas ao longo da criação, e este deve respeitar as necessidades humanas, pois será não só parte integrante de uma rotina, mas de toda uma vida.

“Distingue-se (o homem) de todos os outros animais pelo fato de ter conseguido criar aquilo a que chamarei de prolongamentos do seu organismo. O antropólogo Weston La Barre notou que o homem transferiu sua a evolução do próprio corpo para estes prolongamentos, acelerando assim prodigiosamente o processo evolutivo.”
(HALL,1966, p.15)

Os prolongamentos, (aqui entendidos como produtos e espaço), moldam as relações interpessoais e são capazes de formar indivíduos. A linguagem é a ferramenta mais eficiente no processo de entendimento e interação com a realidade. Por meio dela, o indivíduo se expressa e também incorpora sua realidade material classificando-a dentro de uma escala de valores que difere de uma cultura para outra. A linguagem, portanto, é o principal veículo de movimento recíproco entre realidade individual e material. A realidade material residencial entendida como design de interior, neste contexto, representa o território mais íntimo do usuário; permite a este, tempo hábil para que possa acompanhar e entender os conceitos implícitos nas peças incorporadas à sua rotina.

A linguagem expressa pelas imagens, permite ao indivíduo o poder de seleção de peças que melhor se encaixe às suas necessidades, estabelece um canal de comunicação entre pessoa e objeto, emergindo ambos em um complexo sistema avaliativo onde se pesará o benefício emocional dessa peça em sua rotina. Este retorno pode ser no sentido prático, tornando os afazeres mais eficientes, permitindo certo grau de prazer nas atividades, estético no sentido de se compor um ambiente mais agradável, proporcionando uma relação mais afetiva com o espaço habitado, e enfim, pode-se imaginar uma relação emocional com produtos diversos.

Para Morais (2011), o cenário está cada vez mais complexo, fluido e dinâmico. Isso se deve à drástica mudança de cenário que divide a modernidade estática da contemporaneidade imprevisível, repleta de códigos de difícil compreensão. Este dinamismo e fluidez que caracteriza a atualidade é resultado de um processo de ruptura da escala hierárquica das necessidades humanas, somado à mutação no processo de absorção e valorização da subjetividade, onde seu cerne encontra-se nas questões afetivas, psicológicas e emocionais.

“O designer tornou-se um operador chave no mundo da produção e do consumo, cujo saber empregado é tipicamente multidisciplinar pelo seu modo de raciocinar sobre o próprio produto.”
(CELASCHI, 2000, p. 150)

Existem muitas maneiras de imbuir de emoção um produto. Muitas empresas buscam encontrar maneiras de estabelecer um vínculo entre as referências pessoais e o produto desenvolvido. Outras buscam convidar o usuário ao seu estilo de vida, e também há empresas que buscam cativar com sua simplicidade e transparência. Neste momento é onde o conceito de honestidade se aplica. Uma peça honesta é reflexo das mãos de quem a fez e da mente que a criou, demonstrando todo o seu potencial em ser mais consequente na sua apresentação para o mundo, elevando o grau de detalhismo a todos os aspectos, sejam eles materiais, formais, acabamentos, serviço, consumo e usabilidade. Portanto não há o que se esconder, existe somente a necessidade de mostrar, para que o usuário experimente os materiais, texturas e acabamentos. Escute o conceito, sinta a essência e escolha o melhor produto que corresponde aos seus desejos.

REFERÊNCIAS
CELASCHI, F. Il design della forma merce: valori, bisogni e merceologia contemporanea. Milano: Il Sole 24 Ore/POLIdesign, 2000. 238 p.

HALL, E. A Dimensão Oculta. Lisboa: Relógio D’Água, 1986.