Cada decisão, seja sutil ou declarada, pode ser o início de uma sucessão de acontecimentos que, direta ou indiretamente, influenciará em nossas escolhas futuras, proporcionando níveis de impacto diferentes em nossas vidas. Observando os acontecimentos sob o aspecto do aprendizado perceberemos que tudo possui uma razão de existir, que sem as falhas não existem os acertos e que sem a tristeza não existiria a felicidade. A multiplicidade contraditória ilustra o passo do tempo, instiga olhares, aguça a audição e sensibiliza quem está atento aos ensinamentos cotidianos. Estes indivíduos se tornam seres consequentes em cada aspecto diário, atentos aos desdobramentos e, sobretudo, cuidadosos com as repercussões que suas escolhas gerarão no futuro próximo ou distante.

Nosso mundo material está imerso dentro dessa macroestrutura das contradições, que se repete sistematicamente, podendo ser reduzida ao mais simples dos processos imaginados. Portanto, tudo pode ser visto como consequência de algo que, por fim, desencadear-se-á num processo natural de maturação. Desenvolvida diante de experiências positivas e negativas, ou entre erros e acertos, a maturidade torna o indivíduo mais consequente em suas ações, que diante do caráter dinâmico do meio, imerge o ser em um eterno devir empírico.

No entanto, os sujeitos atinados, atentos à dinâmica dos acontecimentos, acabaram por produzir parâmetros de controle, ou melhor, estratégias para minimização de incoerências visando reduzir os prejuízos materiais, financeiros e trabalhistas em suas mais primárias e sutis atividades. A este método, podemos dar o nome de administração produtiva, que visa estabelecer critérios e estudos para minimizar desarranjos. Cada aspecto do projeto é medido e avaliado a fim de produzir as melhores soluções com o mínimo de desvios das projeções iniciais, que vão desde o primeiro esboço do produto até sua incorporação na rotina do usuário. Este fato torna o ato de criar um produto uma tarefa complexa, repleta de multiplicidades e nuances, onde cada decisão representa um determinado elo na corrente produtiva. Como uma equação, o design é a soma da qualidade, a multiplicação das soluções e a subtração de custos, onde cada etapa do processo gera um impacto nos objetivos de desempenho para o produto.

Portanto, há de fato uma sobreposição entre o desenvolvimento de produto e o projeto de processo, onde, no ato criativo, devem orientar simultaneamente as primeiras decisões, assim como as primeiras linhas do que virá a se tornar um novo produto. Deve-se projetar de maneira multidisciplinar, estabelecendo simultaneamente formas e processos, qualidade e capacidade, usabilidade e demanda, custos e materiais, e assim consequentemente. A macroestrutura da sistematização dos processos relativos a determinado produto, também pode superar a horizontalidade da produção para fins comerciais, saindo do espectro material e ganhando mais verticalidade nos discursos dos produtos, sendo capaz de associar mais aspectos sociais, emocionais e afetivos a um produto antes inanimado. Todo o processo de concepção de uma peça cristaliza, direta ou indiretamente, histórias, pensamentos, aprendizagens e visões, de quem a produziu ou adquiriu, conferindo ao produto características intangíveis capazes de superar a materialidade estabelecendo o que podemos definir como valor social dos produtos.

Por isso na testa do valor não está escrito o que ele é. O valor converte, antes, todo produto do trabalho em um hieróglifo social. Mais tarde, os homens tentam decifrar o sentido desse hieróglifo, desvelar o segredo do seu próprio produto social, pois a determinação dos objetos de uso como valores é seu produto social tanto quanto a linguagem.
(MARX, 2011, p.208)

Em um universo cada vez mais subjetivo e multidisciplinar, produtos que buscam dar mais significado à sua existência, contando a história de seus traços, a inspiração para suas formas e a trajetória fundamentada de sua criação, podem tornar mais ricos, férteis e sólidos os vínculos entre produtos e pessoas. Estabelece, por fim, uma linguagem honesta e única, criada não no momento em que a imagem do produto toca os olhos, pois se assim fosse seria apenas uma relação entre objetos (produto versus olhos), mas sim no momento em que se confere significado à primeira impressão da peça, quando são formados laços que só podem ser explicados pela emoção, no momento em que o produto superará na totalidade sua capa material e transbordará para a sociedade sua essência metafísica.

REFERÊNCIAS:

MARX, Karl. O Capital. Vol. 1. 2ª Edição, São Paulo, Boitempo Editorial, 2011.