“A fonte de diversidade legítima em arquitetura é o programa qualificado pelo sítio e seu entorno.”  Lucio Costa.

A afirmação de Costa remete a uma preocupação da arquitetura moderna brasileira em manter sua coerência interna de forma pragmática e semântica. A inquietação, que se revela em responsabilidade, mostra-se atual frente a uma globalização que exige da arquitetura uma objetualidade e gestualidade não condizentes com o sítio.


Resultado final: 2° Lugar

Compreendendo e aplicando este raciocínio ao projeto em questão, encontramos “in loco” todas as necessidades para legitimar a arquitetura e a paisagem gerando a diversidade que entendemos necessária como fonte, não única, mas fundamental, de urbanidade. Monumentalidade, patrimônio, história, meio ambiente e outros já constituem o “lugar” em foco. O projeto atua mais como uma arqueologia que busca revelar, organizar e relacionar esta riqueza de conteúdo. Assim, novamente, relacionar passado e presente, classes sociais, natureza e edificado, patrimônio e novas arquiteturas; se torna mais importante que impor uma ação.

Para uma sintaxe construtiva, a busca a princípios norteadores nos remete novamente à Lucio Costa, mais precisamente em sua precisão na simplicidade das formas puras, na importância na herança popular em diálogo com a significado da tecnologia avançada, na importância dos valores éticos e morais aliados a uma posição contrária a um formalismo e espacialidades gratuitas. Assim, o projeto busca uma renovação de uma tradição construtiva e ambiental através de elementos diversos, mas relacionados. Assim, as varandas, históricas na casa brasileira, se tornam presentes no projeto. Os telhados ventilados defendidos por Costa se atualizam em coberturas amplas. Os muxarabis recebem uma releitura em brises metálicos com tecnologia atual. As massas de vegetação buscam variar em ortogonalidade e simetrias controladas de forma a valorizar o patrimônio existente, as praças bucólicas, os espaços de encontro e de relacionamento.

A análise dos desafios para a preservação do Patrimônio Cultural no desenvolvimento do sítio partiu do levantamento de quais monumentos são protegidos na área e no entorno e, também, do contexto da área no âmbito da proteção do Conjunto Urbanístico de Brasília, protegido como patrimônio cultural pelo IPHAN e inscrito pela UNESCO, desde 1987, na Lista do Patrimônio Mundial.

É fato que nenhum dos edifícios localizados dentro da área do SRPN é protegido individualmente como monumento pelos órgãos de preservação Federal ou Distrital. No entorno temos o Complexo da Funarte protegido pelo IPHAN e a Árvore do Buriti, protegido pelo GDF e localizada na Praça Municipal, em frente ao Palácio do Buriti. A área de tutela da árvore não atinge a área do SRPN e, quanto à preservação do Complexo da FUNARTE, a setorização proposta pelo edital do Arena BSB já garante a preservação dos visuais desse monumento. Temos, então, que o principal desafio presente na concepção da Arena BSB, com relação à preservação do Patrimônio Cultural, está na preservação e valorização das Escalas de Brasília. Segundo a UNESCO, ao apresentar os atributos do Plano Piloto que conferem valor Universal a Brasília, esses atributos patrimoniais são melhor compreendidos a partir das 4 escalas definidas por Lucio Costa.

Assim, a partir da leitura do entorno do sítio revela o encontro entre a escala monumental, representada pelo eixo leste-oeste, e a escala bucólica representada pelo “pulmão verde” (Lucio Costa), o parque da cidade e o parque Burle Marx.

‘Cabe aqui um aprofundamento desta questão. A Escala Monumental é assim definida por Lúcio Costa:

“A escala monumental comanda o eixo retilíneo — Eixo Monumental — e foi introduzida através da aplicação da “técnica milenar dos terraplenos” (Praça dos Três Poderes, Esplanada dos Ministérios), da disposição disciplinada porém rica das massas edificadas, das referências verticais do Congresso Nacional e da Torre de Televisão e do canteiro central gramado e livre da ocupação que atravessa a cidade do nascente ao poente.”

O eixo retilíneo possui uma fortíssima presença na cidade e, em toda a sua extensão. Como elemento organizador o eixo possibilita que os monumentos se conectam ao mesmo em uma dupla relação de valorizar e ser valorizado. Assim, ao se criar praças que conectam diretamente o Estádio e o Ginásio ao Eixo Monumental reforçamos a importância desse elemento ao mesmo tempo, que as próprias edificações revelam seu caráter de monumento. Ou seja, buscasse aplicar, de maneira sutil, sem remeter a modelos ou cópias do existente, a essência da escala monumental.

Já a Escala Bucólica é assim descrita por Lucio Costa:

“E a intervenção da escala bucólica no ritmo e na harmonia dos espaços urbanos se faz sentir na passagem, sem transição, do ocupado para o não-ocupado — em lugar de muralhas, a cidade se propôs delimitada por áreas livres arborizadas.”

O uso da massa verde como recurso delimitador é também colocado por Lucio Costa ao defender a importância do paisagismo como uma das características principais do Plano Piloto:

“A memória descritiva do plano deixou clara a importância da volumetria paisagística na interação das quatro escalas urbanas da cidade; o canteiro central da Esplanada gramado, as cercaduras verdes das Superquadras, a massa densamente arborizada prevista para os Setores Culturais (ainda até hoje desprovidos de vegetação).”

Assim, reforçamos e defendemos projetualmente ao propor uma massa arbórea em forma de U com sua parte interna voltada ao eixo leste-oeste, que a escala bucólica em relação com a escala monumental deve orientar a implantação.

Esta relação delimita a área e faz a transição com os demais setores urbanos. A possibilidade de apropriação desses espaços pelas mais variadas pessoas, e para os mais variados usos, permite que as áreas arborizadas possam ser utilizadas no dia a dia da cidade, como cada vez mais vem ocorrendo em outras áreas verdes de Brasília, indicando a valorização de espaços livres e arborizados pela população brasiliense. Através de áreas livres gramadas, arborizadas e interstícios criamos um conjunto de parques e áreas públicas de preservação ambiental, mantendo a predominância dos espaços livres sobre os espaços construídos. Novamente afirmamos a busca por uma escala ressignificada e que compreende a paisagem como um ecossistema relacional capaz de gerar e suscitar autênticas dinâmicas sociais.

Concluímos que mais do que preservar, o projeto se apropria dos conceitos defendidos por Lucio Costa ao propor a recomposição arbórea no SRPN e restaurar a inter-relação entre a Escala Monumental e a Escalar Bucólica. Compreendemos que entender a essência das escalas é o maior desafio projetual em Brasília.

AP Arquitetos – Curitiba/PR
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Equipe: Andre Augusto Prevedello, Gustavo Beccari, Alessandra Montani; Cesar de Godoy Gomes, Daniel Silveira, Marlos Hardt.
Colaboradores: Sophia Aguiar, Marlos Mangine, Eduardo Ribeiro, Fabiola Gnoato, Antonieta Brasileiro, Danilo Canali, Lusiana Lopes, Maysa Cavalcante, José Rodrigues Cavalcanti, Taís Prevedello.