Projetar não é um processo linear, como muitas vezes somos induzidos a pensar, não é um encadeamento de ideias que logicamente surgem como um “disegno interno” e pragmaticamente torna-se “disegno externo” (CENNINI, 1859). É na verdade quase uma espiral, cheia de idas e vindas ao longo do processo, aberto e alimentado por inúmeros atores: o cliente, o sítio, as questões técnicas, o autor.

            Claro que à medida em que o desenho avança para etapas mais próximas ao canteiro, detalhamentos e questões técnicas, os retornos às etapas anteriores pormenorizam, mas dificilmente extinguem-se.


Processo mental do projeto
Fonte: Aula Prof. Renato Saboya, UFSC, 2016

O desenhar é parte fundamental do projeto arquitetônico, pois ajuda a reformular a ideia que o arquiteto constrói do espaço, e a visualização é peça chave do processo – o que analisarei mais pormenorizadamente adiante – o meio de produção deste, por sinal, vem sofrendo transformações importantes, transgredindo o ato da representação esquemática 2D manual para a representação realística 3D digital, inclusive nas primeiras traçadas do projeto, mas não irei aprofundar-me nesta linha de discussão, pois isto geraria certamente um novo trabalho de conclusão de curso.

               Porém, é interessante pensar no Arquiteto como um criador, mesmo que com ferramentas digitais na mão. Ao observar o processo projetual não seria ele em si uma produção criativa? O pensar, o fazer e refazer, o traço, o experimentar, a unicidade da proposta… Quando os desenhos eram feitos inteiramente à mão o traço era então mais artístico, a técnica em manusear o grafite ou a nanquim eram valorizados, e o corpo do Arquiteto tinha que contorcer-se em prol da linha perfeita. Nos tempos digitais, a ginástica do corpo foi substituída pela destreza do “mouse” do computador e do olhar ágil na tela.

“O desenhista habilidoso transformava meras pranchas de instruções para obra em cuidadosos objetos gráficos, cuja qualidade artesanal evidenciava a geometria construtiva da própria arquitetura ali representada.” (ARANTES, 2010)

Mas, no final de tudo, o objetivo de todas as épocas do projeto arquitetônico nunca foi diferente de materializar a ideia do Arquiteto em ordens bem definidas para que a obra seja transformada em construção. Mesmo a dinâmica mais complexa de criação à mais simples requereu sempre o pensar no terceiro, em quem irá usar e em quem irá executar a empreitada: tornará real o projeto idealizado. Assim, onde o Arquiteto perdeu esse fim? Em que momento seu projeto afastou-se do canteiro e mergulhou em sua própria feitura sem procurar entender a dinâmica da construção? E pior, está o Arquiteto ele mesmo compartimentando seu trabalho, assim como ocorreu com o canteiro de obras, pois as complexidades construtivas e alternativas projetuais aumentaram de tal soma que os projetos arquitetônicos estão requerendo equipes multidisciplinares trabalhando concomitantemente no mesmo projeto. Múltiplos Arquitetos especializados, cada um em um aspecto do projeto, realizando apenas a sua parte neste. Criando assim um novo patamar de distanciamento: do Arquiteto com o próprio projeto.

      Considerando todas as inferências trazidas até aqui é importante refletir sobre o posicionamento que o Arquiteto deve tomar diante de todas as novas nuances que a profissão vem tomando. Reaproximar-se do canteiro e retomar a posição de protagonismo na gestão de projetos são ações que considero premissas urgentes para o futuro da profissão.

Autor: Patricia Chimiti | da Patricia Chimiti Arquitetura Ltda | Florianópolis-SC

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